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As grutas de Santo António e Alvados são uma expressão interna, subterrânea, da evolução de formações relativamente solúveis como são as rochas calcárias. São vazios subterrâneos de grandes dimensões, de geometria irregular, imprevisível, ricamente ornados de colunas e pendentes habitualmente trabalhados pela precipitação química e que dão passagem a verdadeiros rios subterrâneos. Situam-se próximo do bordo da grande depressão de Mira d´Aire-Minde, junto á serra de Aire, no Maciço Calcário Estremenho. Ficam na área do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros, onde existem outras grutas visitáveis, como a de Mira d´Aire. O parque cobre uma área de cerca de 35 mil hectares, que se distribui pelos distritos de Leiria e Santarém. O melhor acesso a estas grutas faz-se pela estrada que liga Torres Novas a Porto de Mós. Quem parte de Torres Novas encontra, pouco antes de Minde, uma estreita estrada alcatroada que passa primeiro nas grutas de Santo António e depois nas de Alvados. Quem parte de Porto de Mós, encontra a mesma estrada á esquerda, passando primeiro em Alvados e depois no acesso ás grutas de Santo António.
As rochas calcárias deste maciço formaram-se há mais de uma centena de milhões de anos, durante o período Jurássico, quando a Terra era dominada por esses seres vivos que podiam atingir enormes dimensões e que a paleontologia denominou dinossáurios (sáurios gigantescos, temíveis) palavra de raiz grega, que daria em português “sauros”, não fora a necessidade de adaptar a designação ás necessidades da taxonomia biológica. Quando a existência destes répteis extintos foi descoberta, em meados do século passado, a designação taxonómica “sauro” já fora atribuída a uma ordem de peixes. Muito embora alguns deles tivessem sido apenas pachorrentos herbívoros (como os gigantes que deixaram marcadas as suas pegadas na pedreira do Galinha), outros, carnívoros, não seriam, de facto, para brincadeiras. Deixaram marcas da sua passagem, assim mesmo, em pegadas que a consolidação do sedimento carbonatado preservou, fossilizou. Essa consolidação originou as rochas calcárias mais ou menos compactas que depois foram dobradas e fracturadas pelos movimentos tectónicos até constituírem um vasto bloco sobre elevado em relação aos terrenos enquadrantes, que inclui, entre outras, as serras de Aire, de Santo António e Porto de Mós.
As rochas calcárias são relativamente solúveis e pouco permeáveis quando em pedaços de pequenas dimensões. É a fracturação que lhes confere permeabilidade muito elevada em geral, e tanto mais elevada quanto mais densa for a fracturação. A infiltração das águas da chuva nos ambientes calcários é, por via de regra, muito intensa e concentra-se nos trechos de fracturação mais densa que estão associados preferencialmente ás zonas de falhamente onde as rochas sofrem importantes deslizamentos, roturas, como os que sabemos que provocam os sismos através das vibrações que introduzem na crusta. A região da serra de Aire é particularmente rica nestas expressões de modelado. A “latia” de Minde ou o Covão do Coelho, por exemplo, são extensas depressões onde as águas de superfície afluem e só têm saída, ou entrada, para o interior do maciço calcário, indo alimentar a percolação subterrânea. Por vezes, pode ficar temporariamente retida no fundo das bacias devido à impermeabilização com os produtos residuais da dissolução (terra roça). Em certas alturas, o escoamento destas águas é relativamente brusco por remoção localizada dos resíduos de fundo, e a sabedoria popular associa, e bem, o aspecto barrento das nascentes, como a do rio Almóada…,
…, a deslumbrante costela de arquitecto da água não se ficou pela criação destes espaços sinuosos subterrâneos. Depois decorou-os. Fez gotejar dos tectos ou das paredes e, por cada pingo, deixou um minúsculo resíduo de carbonato de cálcio que trazia dissolvido até formar estalactites, suspensas no tecto, que se foram aproximando das estalagmites, que cresceram a partir do chão, até se ligarem em colunas, num magnífico conjunto de silhuetas. Por vezes não resistimos a humanizar aquelas coisas brutas vendo santos e santas, velhos e velhas, ou as associações mais bizarras. Nalgumas destas grutas, os cursos de água subterrâneos formam pequenos (por vezes grandes) lagos que conferem uma beleza especial em ambiente. Nestes lagos sobrevivem inusitadas espécies de peixes que, na ausência de luz, são totalmente cegos e descoloridos. O que longe deve ser encarado como defeitos formativos, constitui antes um belo exemplo da capacidade de adaptação das formas de vida às condições ambientais mais bizarras. Em qualquer destas grutas, a iluminação instalada, bem como os percursos implantados, valorizaram o espectáculo espeleologias.
(texto autorizado / Jornal Expresso)